11 de julio de 2019

Muitos devem estranhar o título de nossa coluna. No entanto, parece-me muito propício para falar sobre a relação entre ciência, tecnologia e sociedade. E, novamente, para isso me remeto à leitura das páginas horrendas dos jornais a nos mostrar a carnificina que se traduz nos incontáveis acidentes automobilísticos – infelizmente – em nosso país. Mas também me remeto a uma crônica – felizmente – que um renomado pesquisador da Grupo CTS coincidentemente escreveu nestes últimos dias.

Mariano Martín Gordillo , que tenho o prazer de conhecer como amigo e estudioso na área de CTS, mesmo morando na Europa, destaca essa questão como um grande problema que a sociedade precisa pensar com mais profundidade. Ele o faz de uma forma serena e analítica. Tenho certeza de que ele nos empresta sua linha de raciocínio para nos chamar a atenção para um problema que passa a ser político e social, muito acima do eminentemente técnico. Alguns trechos, com uma tradução livre e adaptada à nossa realidade que trago aqui para nos auxiliar na busca de algumas possibilidades seguem no desenrolar do nosso texto.

Coloco a chave no contato. Meu automóvel arranca. Saio pela estrada. Uma placa sinalizadora me indica a velocidade máxima com a qual posso circular: 120 km/h. Olho o velocímetro no painel. Parece que meu automóvel poderia alcançar até 240. Fico atento para não superar o limite de velocidade. Recordo-me que não devo dirigir se bebi álcool. Não o fiz. Quando vou dirigir controlo o que bebo. Estou pensando nestas coisas quando outro automóvel me ultrapassa velozmente. Deve estar a mais de 150 km/h. Talvez seu motorista sim tenha bebido álcool.

Alguém já notou algo similar nas nossas estradas nacionais? E ele está falando de estradas com condições de trafegabilidade muito mais aprimoradas. Mas seguimos em frente acompanhando seu raciocínio.

Coloco a chave no contato. Meu automóvel não arranca. Dou-me conta de que não soprei na chave. Então o faço. O dispositivo não detecta álcool em meu hálito e então o motor arranca. Saio para a estrada [Mariano fala em autopista, que não é o caso da maioria das estradas brasileiras]. Acelero. Ao chegar em 120 km/h soa um alarme. Estou superando o limite de velocidade. Tento seguir acelerando. O alarme é mais insistente e molestador. A partir de 130 km/h meu automóvel não aumenta sua velocidade mesmo que eu siga pisando fundo no acelerador. O painel indica 240 km/h, mas meu automóvel não alcança esta velocidade. Não existem radares na autopista porque nenhum motorista pode ultrapassar o limite estabelecido. E também não há controle de alcoolistas. Não fazem falta. Nenhum veículo se coloca em marcha se seu motorista bebeu.

A primeira situação é a que vivenciamos atualmente. No nosso caso ainda temos agregadas as péssimas condições das estradas, como alertamos anteriormente. Aqui no Brasil nos “acomodamos” a chorar as infindáveis mortes que enlutam nossas famílias. Mas geralmente não passam de lamentos esporádicos que, ao entretenimento da “próxima novela das oito”, caem no esquecimento. E assim é, lamentavelmente, com as demais catástrofes diárias a desfilar nos noticiários.

A segunda descreve uma situação onde a tecnologia se ajusta às leis, impedindo que os automóveis possam ser utilizados de forma perigosa. E dela vem a pergunta que sempre soa aos ouvidos das autoridades – preocupadas sim com os números alarmantes – como simples devaneio: por que não se torna uma demanda generalizada que os controles de velocidade com limitadores e chaves sensíveis ao álcool sejam, já, equipamentos obrigatórios em todos os veículos? Mariano segue desfilando cinco argumentos que resumem as razões pelas quais muitos consideram utópico o segundo cenário ou que preferem a situação atual por vários interesses escusos do mundo capitalista.

O primeiro argumento é o tecnológico: não se pode conseguir que os automóveis respeitem automaticamente os limites de velocidade ou não arranquem se for detectado álcool no hálito do condutor. No entanto, essas chaves sensíveis ao álcool já existem. E também existem muitos automóveis que têm controle e limitadores de velocidade. Inclusive seria factível uma limitação variável da velocidade máxima em cada lugar com ajuda do GPS. Por certo, aqui no Brasil, com as estradas que dispomos, esta velocidade seria muito mais reduzida. Se quisermos realmente acabar com a carnificina.

O argumento econômico é de que estes sistemas são muito caros. E a velha máxima diretora do sistema lucrativo da sociedade diz que o tecnicamente possível não é economicamente viável. Os veículos seriam mais caros se levássemos a sério estes dispositivos. Segue Mariano dizendo que talvez umas centenas de euros mais caros. Pode ser que chegue a mil. Mas se a probabilidade de acidentes nas estradas caísse para a metade? As apólices de seguros não teriam também seus custos reduzidos? Seguramente um eventual incremento inicial no preço do veículo com esses dispositivos seria compensado com o decréscimo do seguro ao longo de sua vida útil. E também com o alongamento de tantas vidas humanas que, graças a eles, deixariam de ser perdidas em nossas estradas.

O terceiro argumento é o mais forte e reforça o que sempre discutimos quando falamos das benesses e resultados da tecnologia. Não há interesse das empresas de seguros e dos fabricantes de automóveis. A velocidade vende e não interessa para as empresas a limitação dos “atrativos” nos veículos que produzem. Afinal o ter é sempre mais importante do que o ser. Também, junto com o princípio norteador do transporte, vende-se o luxo, o conforto, a estética e o status. Inclusive são vendidas a sustentabilidade e a segurança do veículo. São os valores da indústria automobilística que desfilam, a cada ano, incontáveis novos modelos que enchem os olhos de quem pode adquiri-los. Afinal, se estamos aqui falando de liberdade de ações, quem deseja satisfazê-las que utilize circuitos fechados, já que as estradas devem por todos ser compartilhadas.

O quarto argumento é o político. Os mercados automobilísticos são globais e os países possuem legislações próprias sobre os limites de velocidade. Tecnicamente não é um problema, já que o GPS permitiria adaptar a velocidade máxima do automóvel a cada lugar.

Finalmente, o argumento político leva ao argumento cultural – que sempre é o principal mote de nossas discussões da relação da tecnologia com a sociedade: a liberdade individual do motorista e sua responsabilidade não devem ser limitadas nunca pela técnica? Não? Quando o artefato é um caminhão, um ônibus, um trem ou um avião ninguém parece confiar completamente na liberdade e responsabilidade individual do profissional que o dirige. Tacógrafos, limitadores, dispositivos de controle automático e de supervisão dos processos reduzem as probabilidades de que estes profissionais se equivoquem em seu trabalho. Segue Mariano com fortes argumentos:

Devemos confiar mais nos condutores não profissionais que circulam pelas estradas do que nos profissionais que dirigem estes outros veículos? O argumento cultural é talvez menos explícito. E também é o mais obstinado. Faz tempo que a implantação do cinto de segurança também causou certas reticências para sua utilização. Na oportunidade, alguns diziam que este dispositivo limitava a liberdade individual do motorista. Não deixa de ser paradoxal que agora aceitemos que seja obrigatório o uso deste dispositivo, que somente salva a vida dos ocupantes do veículo, e não lutemos para que todos os veículos disponham de dispositivos de controle de velocidade e de detecção de álcool, que tornariam mais seguras as estradas por onde circulamos.

A tecnologia automobilística e os valores de liberdade e independência com os quais se associa estão a serviço das pessoas, mas talvez das pessoas equivocadas. Não são as demandas de liberdade dos motoristas as que devem ser o centro dessa tecnologia e sim a necessidade de segurança de todos que circulam nas estradas. Mesmo sendo importante, a questão não é unicamente conseguir com medidas educativas ou sancionadoras que os motoristas se comportem de maneira confiável, responsável e escrupulosa nos cumprimentos das normas de circulação. Isso é muito bom, mas dado que os humanos têm falhas e as tecnologias são feitas por humanos e para os humanos, é importante que ninguém as possa usar como armas perigosas. Sobretudo quando se pode evitar que elas sejam.

Talvez, depois de movidos por estas reflexões, sejamos alertados de que não basta ler por aí adesivos pregando um trânsito mais humano. Sejamos humanos sim! Portanto, temos que interferir nas máquinas, que sempre são produtos que construímos. Ou então nós engenheiros, odontólogos, advogados, médicos vamos continuar a produzir potentes carros, a melhorar sorrisos, legislar sob leis ultrapassadas ou tentar corrigir corpos mutilados pelos aparatos que produzimos como verdadeiras armas de guerra?

REFERÊNCIA
1 Mariano Martín Gordillo é professor do IES n 5 de Avilés – Astúrias, Espanha – e membro da comissão de especialistas da OEI.
2 O texto original está disponível, nas publicações da OEI. Disponível em: http://www.oei.es/divulgacioncientifica/opinion0005.htm. Acesso em: 15 abr. 2011.


Walter Antonio Bazzo,
Engenheiro Mecânico, Doutor em Educação
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
Coordenador do Núcleo de Pesquisas e Estudos em Educação Tecnológica (NEPET)
Colaborador da Organização dos Países Ibero-americanos (OEI)
wbazzo@emc.ufsc.br

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